<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718</id><updated>2011-09-22T12:30:20.440-07:00</updated><title type='text'>Espelho de Areia</title><subtitle type='html'>Areia é espelho não revelado, ao dispor da poesia. Fitar-se na areia é descobrir-se minúsculo e infinito. Fitar-se na areia é ler o mistério trêmulo da própria vida. Fitar-se na areia é ver-se grão e imensidade.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>29</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-6755660772527034752</id><published>2019-10-20T05:06:00.000-07:00</published><updated>2009-10-20T05:09:49.495-07:00</updated><title type='text'>Um eu à procura de um absoluto, ou forcejando por repeli-lo?</title><content type='html'>&lt;div style="PADDING-BOTTOM: 0px; MARGIN: 0px; PADDING-LEFT: 0px; PADDING-RIGHT: 0px; DISPLAY: inline; FLOAT: none; PADDING-TOP: 0px" id="scid:66721397-FF69-4ca6-AEC4-17E6B3208830:a801fe9a-bc87-4cf0-a920-7306b2668203" class="wlWriterEditableSmartContent"&gt;&lt;a style="BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px" href="http://cid-60c88ddd006c3965.skydrive.live.com/redir.aspx?page=browse&amp;amp;resid=60C88DDD006C3965!576&amp;amp;ct=photos"&gt;&lt;img style="BORDER-BOTTOM: 0px; BORDER-LEFT: 0px; BORDER-TOP: 0px; BORDER-RIGHT: 0px" alt="Exibir V S D" src="http://lh5.ggpht.com/_yRXM1RWz1eI/St2n4WGi9oI/AAAAAAAAABo/-6TxoWvi_LM/InlineRepresentation674e161e-debb-4c96-a608-1b4b0d475217%5B5%5D.jpg?imgmax=800" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div style="TEXT-ALIGN: right; WIDTH: 640px"&gt;&lt;a href="http://cid-60c88ddd006c3965.skydrive.live.com/redir.aspx?page=browse&amp;amp;resid=60C88DDD006C3965!576&amp;amp;ct=photos"&gt;Exibir Álbum Completo&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-6755660772527034752?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/6755660772527034752/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=6755660772527034752' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/6755660772527034752'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/6755660772527034752'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2009/10/um-eu-procura-de-um-absoluto-ou.html' title='Um eu à procura de um absoluto, ou forcejando por repeli-lo?'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh5.ggpht.com/_yRXM1RWz1eI/St2n4WGi9oI/AAAAAAAAABo/-6TxoWvi_LM/s72-c/InlineRepresentation674e161e-debb-4c96-a608-1b4b0d475217%5B5%5D.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-4012360838336314449</id><published>2011-09-22T11:50:00.000-07:00</published><updated>2011-09-22T12:30:20.451-07:00</updated><title type='text'>O mesmo tédio dos holofotes silenciosos...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Amigo que me lês (se é que alguém adentra neste espaço ermo, hermético cubículo de palavras abandonadas que guardam sentimentos acres em suas linhas escassas), deves ser uma pessoa entediada. Outra conclusão não posso haurir da tua atitude - afinal, quem se meteria a analisar os escritos de um jovem enfadado senão um alguém capaz de compreender, ainda que minimamente, a carga de galante desamparo que viça na face deste autor? De certa forma, amigo, ambos estamos mal apoitados num mundo de pensamentos hesitantes e desencontrados. Entrevejo certo ressentimento ancestral nesses olhos que percorrem estas linhas - ah, a ânsia de defrontar-se com próprio eu no rosto remoto de uma outra pessoa, a rutilância esfumaçada que permeia a escuridão da alma, a perplexidade. Enrolamo-nos nessa amarga teia de sonhos, desenganos, muxoxos - emergimos de um pântano aparentemente indevassável e nos defrontamos nesta hora de mistério, "vis à vis", alheios a nós mesmos, a essência humana primária perdida nalgum recanto inconcebível. Que sobra de nós? De ti, nada consigo extrair. No ponto em que repouso, sentado deleitosamente numa cadeira almofadada, sem espaldar e sem desejos, só me acodem as forças necessárias para abstrair-me da minha própria humanidade o suficiente para que minha alma se recoste à sombra de alguma esperança muito antiga, muito lisonjeira e irremediavelmente indistinta. E tu? O que sentes enquanto tentas decifrar com fidedignidade esta ordália tautológica? Algum eco de sensações olvidadas assoma no pórtico de sua lembrança? Ou um nó inarredável prende tua garganta a algum sentimento que deve ser repreendido, compactado, escondido, aprisionado? A mim, esse circunlóquio se afigura como uma bela alternativa para sofrear estes ímpetos de arrojar-me numa rotina de autômato, sem memórias ou preocupações, ou precisamente com estas. A alma é dúbia: justamente quando parece se afogar numa placidez que só deve ser praticada nas paragens do Éden, uma cerração indefinível estaciona sobre a limpidez do céu anilado, corporifica-se numa neblina que paulatinamente recrudesce até constituir-se numa hera que escala os montes escarpados da alma e a domina por inteiro. Esse processo tem vários nomes pouco lisonjeiros: escuso-me de enunciá-los. Tu, que agora fitas o horizonte estreito da tua sala, do teu quarto, da tua realidade endurecida, te pões a refletir acerca das minhas considerações, enxugando um suor imaginário e edificando, com medido cansaço, as objeções pertinentes - objeções que teimam em permanecer no terreno utópico de onde nascem usualmente todas as inspirações. Nada te acode, tudo te escapa das mãos espalmadas: chapinhas no lodo do pensamentar, derrapas na fria ladeira do abandono intelectivo. É neste ponto que deixo-te só, a fruir com rancor moderado a letargia de uma tarde de quinta-feira que se vai encaminhando para o crepúsculo, malgrado a melancolia curvilínea que agora se prende às tuas pupilas. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-4012360838336314449?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/4012360838336314449/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=4012360838336314449' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/4012360838336314449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/4012360838336314449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2011/09/o-mesmo-tedio-dos-holofotes-silenciosos.html' title='O mesmo tédio dos holofotes silenciosos...'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-1453038275977992260</id><published>2011-07-05T17:57:00.000-07:00</published><updated>2011-07-05T18:35:42.346-07:00</updated><title type='text'>E a noite de frio e vento. Lá fora...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arre, que o torpor dos séculos humanos, carregado com o ranço dos tédios mais denodados, e repassado às gerações supervenientes, está importunando novamente meus sentimentos. É a mesma coisa que se repete com litúrgica pontualidade, com irritante intermitência: primeiro me afogo em uma rotina hirta e inflexível, atento aos meus deveres, comprometido com as obrigações que as pessoas vão empurrando para o meu lado com desfaçatez; depois vou gradativamente perdendo o interesse nas coisas que antes atraíam minha atenção, deixo de perceber os pequenos detalhes que são capazes de infundir algum interesse a uma existência; por fim, depois de superar todas as agruras de um humor suspeito, faço questão de arrojar para longe toda a carga de responsabilidades e deleites que constituíram a nata dos meus dias pretéritos para então embrutecer-me nessa fastidiosa inamovibilidade, que irrita meu senso produtivo e faz-me perder todo o orgulho. É sentimento? É loucura? É indecisão? É apenas o gesto grave de quem já não encontra sentido nas coisas senão no momento em que artificialmente cria esse significado instável, cego e impertinente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo isso e entao fito as paredes do meu quarto, um local seguro, caloroso, afável a minha intuitiva solidão. Janela, abajur, celular abandonado na cama, um navio em miniatura esculpido na madeira, um guarda-roupas, um grande espaço vazio no qual pretendo colocar uma escrivaninha, e eu, o objeto menos relevante nessa amálgama de insensibilidade. Desejaria escrever como Fernando Pessoa, oh, não conheci quem tivesse levado porrada, o dono da tabacaria sorrindo, o binômio de Newton arredando a beleza da Vênus de Milo, Deus meu, que digo eu? Tresvariando. Não: é ainda a manifestação do tédio, este galante e petulante e desconcertante e ainda assim fleumático tédio. Contudo, que é o tédio?, pergunta-me o filósofo que habita em mim. Para o inferno a filosofia, o niilismo, o ceticismo, o platonismo, o socialismo, o kantismo, todos esses arcabouços encarquilhados e cegos. Para o inferno, para a puta que os pariu - quem era o autor que dizia que o palavrão tem efeito catártico? Rubem Fonseca, creio eu. Intestino grosso. Sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fazer, "mon cher ami"? É uma noite de frio e vento. Lá fora... Poderia lavrar uma metáfora com isso, engendrar uma história, quebrar essa monotonia de sangue e gelo que me atormenta.  Atormenta? Às vezes desconfio que todo esse descompasso, todo esse propalado desarranjo em relação ao mundo e às coisas seja apenas uma desculpa para desimpedir minha verborragia, para externar uma dor que não sinto, para asseverar sobre concepções que não acredito, divisar cenas que não vejo. O poeta é um fingidor que finge tão completamente que chega a acreditar que é dor a dor que deveras - Fernando Pessoa e seus apotegmas. Nascer de novo seria solução? Ressuscitar para uma nova realidade, na visão dostoievskiana - um caminho plausível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que estou farto de semi-deuses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é uma noite de frio e vento. Lá fora... Lá fora?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-1453038275977992260?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/1453038275977992260/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=1453038275977992260' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1453038275977992260'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1453038275977992260'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2011/07/e-noite-de-frio-e-vento-la-fora.html' title='E a noite de frio e vento. Lá fora...'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-1163575242614881406</id><published>2011-04-24T18:11:00.000-07:00</published><updated>2011-04-24T18:30:54.227-07:00</updated><title type='text'>Uma mente vadia...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:100%;"&gt;Não costumo escrever sobre mim neste espaço. Na verdade, há bastante tempo que já não escrevo nada nesta nesga de mundo virtual que já congregou os meus sonhos e preencheu-me de esperanças a vaga mente de criança em rebeldia... A faculdade que abracei não deve ter me auxiliado neste particular. O curso de Direito, em que pese a propalada intenção de produzir profissionais humanistas, na proposta vetusta que secundou o decreto de imperial que criou no país o curso de Ciências Jurídicas, tem demonstrado - ao menos em minha tênue cosmovisão - acalentar o ideal de produzir seres capazes de decodificar as leis e os pensamentos humanos em teoremos linguísticos com conteúdo lógico, quase matemático. Há, obviamente, disciplinas que não se coadunam com essa rigidez, e seria perda de tempo enumerá-las. Falo de essência, de feeling, de qualquer coisa que transcenda a puta hemorragia do mundo cotidiano e investigue com mais nitidez as águas turvas da consciência humana...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:100%;"&gt;Desculpe. Empolguei-me. É ainda resquício de uma existência entregue aos desvarios do sonho. Despi-me disso há algum tempo - não totalmente, é certo. Ainda não me tornei um misantropo, nem aspiro à tranquilidade que, dizem, somente um ermitão empedernido pode fruir em sua cascata de emoções primevas. Quando mais jovem - tenho vinte anos incompletos, no momento - acreditava numa série de coisas que hoje me fazem sorrir. O sarcasmo, que nos meus tempos de pré-adolescência era apenas uma existência parasita e inofensiva, parece invadir-me cada recanto da alma. Há resistência, certamente. Amo apaixonadamente uma princesa de dezessete anos de idade, de olhos verdes, boca magnética e ternura inesgotável. Mas uma boa parcela da alma já foi tomada por um sentimento indefinido, mescla de tédio, descrença, quietude, tranquilidade e sofrimento. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:100%;"&gt;Na verdade, &lt;/span&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:trackmoves/&gt;   &lt;w:trackformatting/&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:punctuationkerning/&gt;   &lt;w:validateagainstschemas/&gt;   &lt;w:saveifxmlinvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:ignoremixedcontent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:alwaysshowplaceholdertext&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:donotpromoteqf/&gt;   &lt;w:lidthemeother&gt;PT-BR&lt;/w:LidThemeOther&gt;   &lt;w:lidthemeasian&gt;X-NONE&lt;/w:LidThemeAsian&gt;   &lt;w:lidthemecomplexscript&gt;X-NONE&lt;/w:LidThemeComplexScript&gt;   &lt;w:compatibility&gt; 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Quando quedo silente, cheio de uma reverência ancestral pelas coisas mundanas que são maiores que minha compreensão, percebo que a poeira temporal mancha cada recanto de pensamento que eu possa engendrar, mesmo nos meus paraísos mais íntimos, e então nada mais interessa, tudo se sedimenta num tédio sem remédio, e ao final abandono qualquer quimera. A minha forma peculiar de observar o mundo, a calma com que procuro traduzir minhas impressões e conduzir a marcha de minha existência, não obstante os arroubos que eventualmente se me irrompem, e principalmente a paixão por uma rotina obediente, sem grandes sobressaltos nem emoções, desenvolvida num ritmo homogêneo, é sinal de uma resistência obstinada, uma indignação surda, contra as molas do tempo. Costumo reclamar de forma veemente contra a sua corrida insana, contra esse jeito linear que enseja a perda das melhores horas, trasvestidas em céleres sessenta minutos que mal conseguem abarcar as necessidades rotineiras. As pessoas que me escutam riem, dizem que é normal uma tal situação, que o tempo precisa exercer com bastante fidelidade o seu ofício. Discordo: o tempo tem acelerado a sua atuação, penetrado em domínios em que lhe não era facultada a entrada, e tem tomado de assalto as vidas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:trackmoves/&gt;   &lt;w:trackformatting/&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:punctuationkerning/&gt;   &lt;w:validateagainstschemas/&gt;   &lt;w:saveifxmlinvalid&gt;false&lt;/w:SaveIfXMLInvalid&gt;   &lt;w:ignoremixedcontent&gt;false&lt;/w:IgnoreMixedContent&gt;   &lt;w:alwaysshowplaceholdertext&gt;false&lt;/w:AlwaysShowPlaceholderText&gt;   &lt;w:donotpromoteqf/&gt;   &lt;w:lidthemeother&gt;PT-BR&lt;/w:LidThemeOther&gt;   &lt;w:lidthemeasian&gt;X-NONE&lt;/w:LidThemeAsian&gt;   &lt;w:lidthemecomplexscript&gt;X-NONE&lt;/w:LidThemeComplexScript&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt; 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A noite já começa a tornar-se mais sólida e perceptível no céu desmaiado. Novamente, consegui escrever apenas o suficiente para deixar impressa uma algaravia de impressões descontextualizadas que mal merecem uma atenção mais cuidadosa. O jeito, pelo visto, é recolher-me ao meu silêncio repleto de palavras arrevesadas, de frases engulhadas em estômagos hipotéticos, de hesitações e imprecisões, e persuadir-me, de uma vez por todas, que não há literatura que baste para conjurar o desespero tão inocente de existir.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-family:&amp;quot;;font-size:12pt;"  &gt; &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-1163575242614881406?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/1163575242614881406/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=1163575242614881406' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1163575242614881406'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1163575242614881406'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2011/04/uma-mente-vadia.html' title='Uma mente vadia...'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-5589048104322475935</id><published>2009-12-27T06:07:00.001-08:00</published><updated>2009-12-27T06:07:38.641-08:00</updated><title type='text'>Melodia incipiente…</title><content type='html'>&lt;p&gt;   &lt;div align="justify"&gt;Do alto do morro, o homem contemplava a paisagem que se estendia por quilômetros silenciosos. De quando em quando suspirava. Era uma hora calma, os pássaros guinchavam, longínquos, no céu as nuvens faziam-se e desfaziam-se, preguiçosamente. Ele refletia – mas não seria capaz de definir o conteúdo de seus pensamentos. O que importava eram os sentimentos inexplicáveis que o assolavam naquele espaço plácido. Eram um misto de tranquilidade e desespero – uma amálgama de sentimentos tão difusos que as palavras não comportariam qualquer descrição. &lt;/div&gt;    &lt;div align="justify"&gt;&amp;#160;&lt;/div&gt;    &lt;div align="justify"&gt;Subitamente ele fechou os olhos, procurou cegamente os caminhos de sua felicidade naquele instante de placidez que o atravessava como uma faca, os olhos fechados, o rosto retesado, as mãos repousadas sobre o parapeito do mirante. Ficou algum tempo nessa atitude, distante da indigesta humanidade que o angustiava e preso naquela condição primária de ser vivo relutando em morrer. Quando abriu os olhos, as pupilas brilhavam tristemente. Os lábios descerraram-se, e o homem começou a cantar, incipiente como uma criança que acabasse de descobrir a existência de melodias no ar do mundo – enquanto uma aragem fresca agitava a copa das árvores e o tempo estacionava seu cansaço sobre a terra em perene inquietude&lt;/div&gt;    &lt;div align="justify"&gt;&amp;#160;&lt;/div&gt;    &lt;div align="justify"&gt;.&lt;a href="http://lh5.ggpht.com/_yRXM1RWz1eI/SzdqIgrH8RI/AAAAAAAAACo/DhUqhXCPGag/s1600-h/BXK16597_montanha-1800%5B14%5D.jpg"&gt;&lt;img style="display: inline" title="BXK16597_montanha-1800" alt="BXK16597_montanha-1800" src="http://lh6.ggpht.com/_yRXM1RWz1eI/SzdqKGEyDTI/AAAAAAAAACs/86h3cBT1H_Q/BXK16597_montanha-1800_thumb%5B13%5D.jpg?imgmax=800" width="396" height="285" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;/div&gt;    &lt;div align="justify"&gt;     &lt;p&gt;&lt;/p&gt;   &lt;/div&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-5589048104322475935?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/5589048104322475935/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=5589048104322475935' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/5589048104322475935'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/5589048104322475935'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2009/12/melodia-incipiente.html' title='Melodia incipiente…'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://lh6.ggpht.com/_yRXM1RWz1eI/SzdqKGEyDTI/AAAAAAAAACs/86h3cBT1H_Q/s72-c/BXK16597_montanha-1800_thumb%5B13%5D.jpg?imgmax=800' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-1832434039179575274</id><published>2009-10-27T05:53:00.000-07:00</published><updated>2009-10-27T16:39:42.467-07:00</updated><title type='text'>O HOMEM E O DESESPERO</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/SueErVhCpeI/AAAAAAAAACg/glYjYC_VHrY/s1600-h/desespero.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer; width: 320px; height: 240px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/SueErVhCpeI/AAAAAAAAACg/glYjYC_VHrY/s320/desespero.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5397428558471800290" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em um dia de sol opaco – e era um dia de inverno, as rosas murchas nos recantos de muro, as crianças inexpressivas em seus silêncios enregelados, as rugas marcando mais profundas a existência das mulheres – um homem foi chamado frente ao Desespero. Atirou longe o monumental agasalho que trazia, descobriu o rosto oculto por um capuz, afastou de si as malas hipotéticas que trazia a tiracolo, e macilento, como um defunto que se apresentasse ao ritual de seu sepultamento, ele se apresentou frente o Terror dos Homens. Nos seus olhos frios o Desespero esperava, e murmurava palavras incompreensíveis. Depois de um tempo de mútua contemplação – externo a eles, o hálito dos zéfiros e a o hirto caminho de uma realidade em agonia – o Desespero sorriu, e exprimiu-se em palavras tais: ‘Tu, grande homem, símbolo duro de um tempo duro, insígnia da ternura numa dimensão de pegajosa ternura, tu, que ousou definir-te justamente quando já não eras capaz de suportar qualquer definição, tu, enfim, vens te colocar frente a mim! És a recompensa caçada entre as trevas, o prêmio a que me reservei num instante de cobiça... Agora vês o quão inúteis eram teus objetivos, quão ridículos os teus sonhos!... Dei-te o amor mais puro, o néctar da paixão ardente, e quando mais julgavas seres capaz de fazê-lo frutificar, de vencer o tempo e as agruras que tornam em ruínas o belo ao cabo de segundos, fiz com que ele apodrecesse pouco a pouco na tua boca, para que te não sobrasse nem ao menos a lembrança saborosa do deleite de antanho... Dei-te a presunção de abarcares com o teu saber todas as portas do sucesso e da filosofia, guiei-te por meio dos meandros mais sinuosos até que te percebeste submerso no lodo que tu próprio tinhas despertando com teus passos seguros... Dei-te amigos, e a volúpia de tê-los ao pé de si, disponíveis, assíduos, os olhos doces pousados no teu semblante austero, em ti, referência luminosa que abarcava todas as influências e desvanecia as certezas... E muito pausadamente, como quem degusta uma fruta, como quem deposita numa cova a flor da morte, eu os afastei - firmemente, para que não voltassem, não votassem nunca... e a tudo isso assistias com esse mesmo rosto inescrutável. Destruí tudo o que amavas – nem a convicção paralisante de que viveste legitimamente eu te permiti guardar no coração embotado. E nada te resta agora, senão a minha companhia eterna...” O homem estremeceu, fitou no Desespero um olhar de alma ferida, entreabriu os lábios, mexeu-os com vagar. O Desespero considerou  de si para si que o homem orava ao Deus há muito abandonado no pedestal divino de cujo pé o homem se recusara a ajoelhar-se, e riu-se de escárnio. Mas o homem não orava. Recordava os beijos de paixão que trocara com a mulher que o enlouquecera, a dura caminhada através dos silêncios inamovíveis em busca de um conhecimento que lhe inculcara o mais langoroso desolamento, os amigos que sumiram mudos no alvoroço dos dias que não se repetiriam mais... Depois desse exercício de dor, ele levantou o corpo musculoso, a face reluzente de suor, os músculos contraídos, e disse: “Não importa o que me fizeres, não importa a que ermo estrangulado me leves na tua faina de impiedade... o gênio inquebrantável, esse não conseguiste furtar-me na tua armadilha... teus ardis não dobraram minha têmpera... viva eu sozinho, doente, espezinhado pelos fantasmas que fores me atirando como tomates podres, nem ao menos assim verás corar minha face de vergonha, nem remexer-se a minha boca num esgar! que eu me violente intimamente para não deixar transparecer na exterioridade das minhas pupilas o flagelo que ronda meus segredos! que eu redija a história larga dos opróbrios com o sangue irriga meus membros, de modo que a outro não se imponha, como a mim, o martírio de não ter salvação... que eu seja o teu filho, mas principalmente o teu maldizente! Se meu fado é carregar-te vida afora, que eu o faça de modo a jamais perceber-te senão quando estiver aparelhado de forças hercúleas com que repelir-te e amaldiçoar-te! Ainda que me tenhas roubado os horizontes”, arrematou o homem, erguendo a fronte lacerada e fitando o sol que desmaiava de cansaço, “não me furtaste as veredas”. O Desespero mordeu os lábios, enquanto fitava o homem que afastava num passo marcial, amparando com o pensamento as pernas que queriam titubear de fraqueza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-1832434039179575274?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/1832434039179575274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=1832434039179575274' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1832434039179575274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1832434039179575274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2009/05/o-homem-e-o-desespero.html' title='O HOMEM E O DESESPERO'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/SueErVhCpeI/AAAAAAAAACg/glYjYC_VHrY/s72-c/desespero.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-5194778381774207350</id><published>2009-10-23T04:41:00.001-07:00</published><updated>2009-12-27T05:42:18.654-08:00</updated><title type='text'>Na Calçada, poeira…</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div align="justify"&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/_yPzfoDXLp-o/SrDYdZ5NUKI/AAAAAAAAGVg/_RE0-ZdRze8/s400/Ninfa.jpg" /&gt; &lt;/div&gt;  &lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;  &lt;p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;div align="justify"&gt;   &lt;p&gt;&lt;/p&gt; &lt;/div&gt;  &lt;div align="justify"&gt;   &lt;p&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;Contemplava-a com os olhos marcados pela vigília. A imagem que se formava em minha retina era uma nesga de vida que se apresentava sob a forma de olheiras profundas, um sorriso inexpressivo, um tom de cansaço que se comunicava aos membros frágeis. Fiquei olhando o seu semblante durante um tempo bem longo, ela ao longe, andando na calçada com um jeito indolente, um pouco afastada do grupo de prostitutas mais jovens cujo corpo ainda não se degradara com a agrura da profissão. Riam ainda com certa entonação argentina, mas que já se fazia ouvir marcada por uma impostação e uma predisposição para o cálculo e a simulação. De quando em quando uma se adiantava do grupo, ao ver o sinal de um freguês que se achegava num carro de vidros negros que se abriam apenas o suficiente para que o seu ocupante pudesse trocar algumas palavras com a garota e combinar o programa. Mas eu não prestava muita atenção a essas carnes ainda frescas. Interessava-me aquela mulher de porte mendicante, com rios de velhice precoce a sulcar o rosto, coxas finas e seios achatados que mal faziam pressão às roupas excessivamente justas.&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;&lt;/p&gt; &lt;/div&gt;  &lt;div align="justify"&gt;   &lt;p&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;Recostei-me no assento e fechei os olhos por um instante, depois de fitar a paisagem urbana a que sempre me vi preso por um sentimento estranho de inquietação. Os postes públicos estavam acesos, o asfalto resplandecia com a luz crua que incidia sobre ele. Os umbrais dos edifícios eram ocupados por um ou outro mendigo. Dois deles tinham nas mãos visguentas um saco plástico que levavam periodicamente ao nariz, num contínuo esvaziar-se e encher-se. As lojas, fechadas, pareciam agressivas em sua mudez, como se estivessem preparando as energias e os ardis comerciais para o dia que nasceria horas depois, repleto de sede e pressa. Alheia a tudo, a prostituta continuava a andar, correndo o olhar provavelmente mortiço sobre as calçadas pouco movimentadas, procurando um cliente. Meu celular vibrou, mas não me movi. Aquele instante era pouco para abarcar a extensão de realidade que se impunha à minha consciência.&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;&lt;/p&gt; &lt;/div&gt;  &lt;div align="justify"&gt;   &lt;p&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;Perguntas redemoinhavam, pensamentos fundiam-se e dissociavam-se, e a noite não elucidava minhas dúvidas. Eu não me sentia mais que perplexo. Mas era uma perplexidade estranha, tranqüila, cheia de um sentimento de pasmo silencioso manchado de aceitação. A mulher ia-se afastando com vagar, a bolsa pendendo no braço frouxo. No seu rosto residia uma expectativa, no silêncio da calçada seus passos deviam ecoar ocos. As nádegas escassas mal rebolavam, nas costas manchas roxas viam-se, nítidas. E ela, sem saber, pertencia-me naquele instante, em toda a sua essência manifesta e imanente, presa eternamente aos minutos em que meu olhar percorria os seus contornos e minha reflexão abandonava os limites do perceptível, elucubrando a sua vida escura de calçada, pó e noite.&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p&gt;&lt;/p&gt; &lt;/div&gt;  &lt;div align="justify"&gt;   &lt;p&gt;Liguei o motor, fiz o carro deslizar pela estrada até emparelhar no passeio público onde a mulher agora aguardava. Ela olhou, surpresa, o vidro negro do automóvel abrir-se cautelosamente e do interior do veículo saltar uma nota amarfanhada que caiu-lhe aos pés sem ruído. Acelerei subitamente e só olhei pelo retrovisor ao dobrar a esquina. Ao longe, atrás, a mulher fitava um ponto da calçada, parecendo hesitar.&lt;/p&gt; &lt;/div&gt;  &lt;div align="justify"&gt;   &lt;p&gt;&lt;/p&gt; &lt;/div&gt;  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-5194778381774207350?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/5194778381774207350/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=5194778381774207350' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/5194778381774207350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/5194778381774207350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2009/10/na-calcada-poeira.html' title='Na Calçada, poeira…'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_yPzfoDXLp-o/SrDYdZ5NUKI/AAAAAAAAGVg/_RE0-ZdRze8/s72-c/Ninfa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-3717500759683825521</id><published>2009-10-13T18:16:00.001-07:00</published><updated>2009-10-13T18:16:20.319-07:00</updated><title type='text'>Sonho rompido</title><content type='html'>Ele sentia uma lascívia sinuosa explorar seu corpo a cada carícia ardente. Era com íntima satisfação que via o enlevo de ambos transformar-se em excitação doida, as línguas polivalentes e irrequietas, as mãos passeando no ar à busca de um pedaço de pele a palmilhar, os olhos profundos e amortecidos pelo desejo a contemplarem por um momento o olhar também lânguido do outro, para só então, num segundo expectante, desaparecerem sob as pálpebras que se cerravam ligeiras, num antegozo febril. Misteriosamente, as roupas evaporaram-se, os corpos se tornaram indistintos na confusão de gemidos que enchiam o ar do quarto, e os dois encaminharam-se, os olhos ainda cerrados, para o leito, unidos pela mesma ânsia de se afogarem naquele deleite. O peito expandia-se, a respiração tornava-se um ronco cavernoso que saía ofegante na sua boca expectante...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perplexamente, a tela apagou-se e o edifício ficou às escuras. Na escuridão que o rodeou subitamente, o silêncio acolheu num ressonar de tristeza a solidão que se fazia impenetrável nas suas mãos apertadas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-3717500759683825521?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/3717500759683825521/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=3717500759683825521' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/3717500759683825521'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/3717500759683825521'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2009/10/sonho-rompido.html' title='Sonho rompido'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-4542014153841934160</id><published>2009-07-09T08:30:00.001-07:00</published><updated>2009-07-11T07:31:24.867-07:00</updated><title type='text'>OLHARES ENTRELAÇADOS...</title><content type='html'>A palavra escapou-lhe repentinamente dos lábios já entreabertos, e o olhar, dantes firme, tornou-se estático, estupefato. O semblante ficou lívido. Fitou assombrado toda a multidão que esperava suas palavras, paralisado. O silêncio não durara ainda um segundo, e já todo o seu corpo tremia, a vergonha ruborizara seu rosto, a respiração tornara-se impossível nos pulmões agoniados. Sabia exatamente o que deveria dizer, a entonação adequada, o timbre de voz necessário para angariar a simpatia dos ouvintes, os gestos que, calculada e tranquilamente, tinha que esboçar no ar eletrizado pela expectativa. Mas, justamente no instante de maior segurança, naquele inviolável segundo em que o homem crê possuir nas mãos o poder de esmagar o insucesso, faltou-lhe a clareza de uma sílaba, e a palavra que já saía pressurosa engasgou-se, silenciou, escondeu-se nalgum recanto obscuro, impedindo a passagem da torrente de palavras que ansiava por inundar as consciências. Decorreu ainda mais um segundo. O orador, imóvel em seu fracasso, contemplava a multidão com olhos mortiços. Uma tristeza infinita cobria-lhe as íris e invadia as pupilas angustiadas e sombrias, diminuídas pelo horror. A multidão fitava-o em meio a um burburinho insidioso. Provavelmente a imagem do homem que se interrompera no seu discurso pretensioso traduzia a estereotipada visão do ridículo, a espalhafatosa imagem do perdedor que causa riso e piedade à turba. Durante um par de segundos que não passava, orador e multidão desafiaram-se secretamente – entrelaçando olhares que teciam na atmosfera ácida uma animosidade antiga e inamovível. Um ódio irônico fundia-os numa mesma miséria superior a eles próprios. Os olhares entrelaçados talvez permanecessem imutáveis por muitos minutos se o orador, num repelão intempestivo, não rosnasse um “muito obrigado” e se retirasse do palco, permitindo à multidão emergir da letárgica contemplação, estremecendo numa risota que ia muito bem com o tom alcalino do céu&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-4542014153841934160?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/4542014153841934160/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=4542014153841934160' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/4542014153841934160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/4542014153841934160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2009/07/olhares-entrelacados_09.html' title='OLHARES ENTRELAÇADOS...'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-8026636971650933964</id><published>2009-06-20T10:34:00.001-07:00</published><updated>2009-10-27T05:24:32.655-07:00</updated><title type='text'>SOLIDÃO PUTREFATA...</title><content type='html'>&lt;em&gt;texto suprimido temporariamente...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;participando de concurso...&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-8026636971650933964?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/8026636971650933964/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=8026636971650933964' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/8026636971650933964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/8026636971650933964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2009/06/solidao-putrefata.html' title='SOLIDÃO PUTREFATA...'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-7930349937434612729</id><published>2009-02-07T16:11:00.000-08:00</published><updated>2009-02-07T16:12:04.481-08:00</updated><title type='text'>UM TALHO: O MUNDO</title><content type='html'>Um campo de terra, demarcada, que rasga o mundo&lt;br /&gt;Não é o mundo.&lt;br /&gt;É apenas a misteriosa ordenação&lt;br /&gt;Que o faz parecer&lt;br /&gt;Rasgar o mundo&lt;br /&gt;Sem pertencer a ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o mundo fica órfão dele&lt;br /&gt;Porque já não é possível resgatá-lo&lt;br /&gt;Do sombrio ofício, humanamente,&lt;br /&gt;De rasgar o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o mundo abre um parêntesis.&lt;br /&gt;Parêntesis que não o arranca&lt;br /&gt;Da tristeza, recôndita tristeza&lt;br /&gt;De estar incompleto&lt;br /&gt;Irremediavelmente ferido:&lt;br /&gt;Talho de terra rasgando-se&lt;br /&gt;Cicatrizando-se aos poucos&lt;br /&gt;Orfandade terrosa&lt;br /&gt;De mundo&lt;br /&gt;Dilaceradamente mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-7930349937434612729?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/7930349937434612729/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=7930349937434612729' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/7930349937434612729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/7930349937434612729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2009/02/um-talho-o-mundo.html' title='UM TALHO: O MUNDO'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-8148680595748894124</id><published>2008-12-24T13:33:00.000-08:00</published><updated>2008-12-24T13:34:51.919-08:00</updated><title type='text'>UMA HISTÓRIA DESPRETENSIOSA (retomando as atividades)</title><content type='html'>Chamado ao palco em uma conferência literária, Escritor sobe sorrindo as escadinhas e cumprimenta seus colegas de ofício – todos empertigados e solenes, de mangas compridas e colarinhos ajustados. Ao fundo, uma saraivada de palmas entusiásticas. Num exórdio, o presidente louva a qualidade inegável dos romances de Escritor, seu estilo elegante, suas análises subjetivas mas mordazes, sua inata capacidade de analisar as mazelas psicológicas das pessoas e transportá-las para seus livros, traduzindo magnificentemente a própria essência humana. Escritor sorri, divertido com o tom professoral e hiperbólico do presidente. Por fim, Escritor é desafiado a contar uma “história despretensiosa” aos colegas e ao público que ocupa as centenas de poltronas estofadas do teatro. Ele gargalha um momento – uma curta risada irônica – e responde numa voz bem modulada: “contarei”. O público se alvoroça, um burburinho perpassa toda a audiência como vaga lambendo a orla litorânea. Escritor posta-se no proscênio, e, boca pouco afastada do microfone, começa placidamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esta é uma história, portanto é imperativo que tenha personagens, e essencialmente um protagonista. Pois bem, nosso protagonista é um homem singular: barba e cabelos desgrenhados, face atravessada de sulcos profundos, olhos ardentes, negros. Veste-se como um profeta: a longa túnica azul cobre-lhe o corpo magérrimo e encardido, a pele encobre o estômago acostumado aos continuados jejuns, as feições guardam um ar de perene insânia. E, para completar a figura, um cajado, um enorme cajado pesadíssimo, desproporcional para a figura miúda que o nosso profeta apresenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O povo o observa suspeitoso, olhos apertados e punhos cerrados, intrigados. As pessoas vêem o profeta murmurar palavras estranhas para si mesmo, escrever em longos pergaminhos com penas e tintas infecundas para esse ofício, contemplar horas a fio um único ponto, olhos vidrados e membros hirtos, para depois acordar repentinamente num sobressalto. Escrutam-no à distância: ninguém tem coragem de falar com ele, sua fisionomia estrambótica causa repulsa e temor às crianças, empalidece as mulheres, faz fremir os homens de indignação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Num dia de calor desmesurado, o profeta mostrou-se mais inquieto. Marchava de um lado para o outro, sobrecenho tempestuoso, nariz espetando o ar, os olhos incendiados pela vigília. À noite, dirigiu-se para a cidade. Havia festa: louvavam-se aos deuses pastoris pela beleza do crepe sombrio cingido de luzes minúsculas que embelezavam naquela estação o recesso do sol. O profeta olhou aquela festividade esplêndida com mal dissimulado asco. Aos poucos, o barulho foi cessando – o povo tinha percebido a incômoda presença do profeta e olhava-o curioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que vieste fazer aqui, velho?”, vociferou um homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Venho fazer-vos ver a verdade”, respondeu o profeta. Seus olhos ardiam como carvões que crepitassem, abrasados. Na turba houve um movimento semelhante a um calafrio. Artesãos e escribas tiveram uma tangível sensação de presságio na alma embotada, e diligenciaram calar apressadamente o profeta, que se encarapitara sobre um caixote meio apodrecido e fitava a multidão atônita com seu olhar insano. Mas foi impossível. O profeta prolongou-se por trinta horas consecutivas numa alocução interminável, na qual afirmou que ele, profeta, percebera na clausura da solidão a existência de apenas um deus, que tinha dez braços, oito pernas e uma cabeça enorme, no alto da qual tremulava perpetuamente a flama do entendimento. Os olhos de deus não tinham cor, pois neles residiam a crueza cálida da vida e a frialdade inadmissível da morte. Suas mãos fadavam-se delicadas e hábeis, pois haviam concebido num instante sagrado de inspiração toda a singeleza do mundo. Seu herdeiro, seu dileto herdeiro, fora engendrado na solidão eterna de Sua Divindade, e era singelo e puro, com características humanas e um perpétuo ar de beatitude no semblante indizível. “Ele vive entre nós, fisicamente, e chegará o dia em que ele se revelará com todo o seu séquito feérico e dará gênese a uma felicidade inteiriça, inafiançável mesmo por nossa endurecida iniqüidade, e far-nos-á felizes, agraciando-nos com a honra insigne de fitarmos o semblante de seu criador e gozarmos das venturas por ele concebidas”. O povo não emitiu um som qualquer durante todo o discurso, afogado na loquacidade do profeta e envolto num silêncio de letal fascinação. Permaneceram todos de pé, sem perceber o estrugir dos estômagos surdos aos apelos de sibila e a urina e as fezes que, de tão naturalmente reprimidas, acabavam escapando sem a permissão de seus donos, escorrendo dos pêlos secretos e vindo molhar lentamente a areia desértica da praça. Quando o profeta calou-se, vermelho e exausto, o povo estava ainda petrificado pelo espanto da revelação. Aos poucos emergiu das cavernas das suas mentes um grito unânime de aclamação, um altissonante ronco de mentiras perfumadas que desprezou as irregularidades do relevo, a soberana massa de água salgada que os observava do horizonte, o sibilar secreto das nuvens, o emperro da alma humana e destruiu num dilúvio o tédio que avultava na face pálida do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova fé floresceu na comunidade. A voz dos escribas foi calada pelo alarido da procela, que se aparelhara de forças renovadas, guiada pela mão veemente do profeta. Foram assassinados numa madrugada lôbrega e ensimesmada. O profeta acercou-se de sacerdotes convenientemente instruídos, que mais pareciam sequazes disfarçados, e disciplinou a aldeia na nova crença, fundamentando-a sobre valores refeitos e inflexíveis, cheirando a dissimulado mofo. Como uma mancha insidiosa que penetra no íntimo das coisas e as invade inapelavelmente, a fala do profeta venceu os empecilhos da distância e do tempo, instalou-se na consciência dos viventes da aldeia e das circunvizinhanças num frêmito irresistível. Paulatinamente os países foram caindo sob o domínio de profeta, e ele pôde ver, no seu leito de morte, rodeado por seus discípulos mais fiéis, a derrota dos êmulos e dos opositores que levantaram a voz contra seus postulados.&lt;br /&gt;Profeta morreu tranqüilo, amálgama de peles sobrepostas, mosaico de halos imaginários vislumbrados por todos os apaixonados discípulos. Profeta morreu sorrindo. Ninguém soube, nem mesmo nos séculos que se seguiram, que seu sorriso fora de zombaria, de gaiata e silenciosa esperteza. Profeta morreu desprezando a humanidade, tão banal, tão esperançosa, sempre pronta a acreditar em qualquer mentira descabida arquitetada sobre mistérios utópicos. Profeta foi enterrado – e com ele, nossa história despretensiosa também”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém tosse na platéia. Homens secam com lenços perfumados o suor visguento da compreensão. As mulheres afundam-se nos casacos pesados, procurando proteger-se da acrimônia intolerável da história. Escritor vagueia os olhar por cada semblante, sorrindo triste. Dispõe-se a devolver o microfone para o presidente quando um homem taciturno, sentado na primeira fila, ruge: “essa não foi uma história despretensiosa”. Escritor fixa o homem por algum tempo, imerso na piedade, e concede: “é verdade, amigo. Infelizmente, é impossível narrar uma história despretensiosa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O presidente, também constrangido, considera como azado dar por finda a conferência. O público dissolve-se, em silêncio, pelas galerias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-8148680595748894124?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/8148680595748894124/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=8148680595748894124' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/8148680595748894124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/8148680595748894124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/12/uma-histria-despretensiosa-retomando-as.html' title='UMA HISTÓRIA DESPRETENSIOSA (retomando as atividades)'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-6166991831306980364</id><published>2008-10-12T07:07:00.000-07:00</published><updated>2008-10-12T07:08:35.809-07:00</updated><title type='text'>O BAILE DE UMA CIDADE DE AÇO E CONCRETO</title><content type='html'>Incrustado no planalto norte de Santa Catarina, o lugar em que vivo amanhece todo o dia de forma célere, pulando da cama com olhos estremunhados e gestos esquivos: é Joinville, uma cidade dinâmica, apressada, industrial. Trabalhadores, artistas, políticos, anônimos, jovens, idosos, pessoas enfim movimentam-se nessas ruas enfumaçadas, buscando fazer não sei bem o quê. Talvez viver.&lt;br /&gt;É uma cidade de concreto e aço, uma cidade perfeitamente adequada às conveniências contemporâneas. Tem seu riozinho fétido e mórbido que corta o centro da cidade, empestando o ar com sua frialdade de lodo. Tem seus prédios maciços, suas indústrias alacremente pintadas, suas universidades, seu comércio ostensivo e ardiloso. Tem seus mega-centros, tem suas sociedades recreativas, tem suas madrugadas enfastiadas. &lt;br /&gt;Meu lugar se assemelha a qualquer outra cidade grande. Tem ruas, pessoas, comércio, muito movimento e algum tédio. Tédio disfarçado, triturado em sorrisos, em cartões de visita, em telefonemas velozes, em chopes sorvidos após a labuta do dia. As pessoas de Joinville assimilaram em suas almas, como a maioria dos inconscientes do mundo, o entrechocar de ferros em movimento. Estão íntima e eternamente besuntados pelo óleo das engrenagens que operam ou vêem operar todo o dia.&lt;br /&gt;É uma cidade agitada que teima em ser única. Seus asfaltados ângulos retos traduzem a monotonia da vida operária de tal maneira que antes mesmo de terminarmos de saborear a esquina da rua que termina nos vemos jogados no turbilhão de uma nova rua, em pleno e doloroso parto... Há lugares plácidos: os campos de futebol de várzea, as praças calmosas, os shoppings de lojas magnéticas e convidativas, com ar condicionado... no meu lugar de moradia há resistência à previsibilidade: afinal, que cidade tão ferozmente industrial se preocuparia em fazer florescer as artes cênicas, a dança de origens diversas, a literatura pertinaz senão esta minha terra erguida sobre a inconstância dos mangues?&lt;br /&gt;O lugar em que vivo ostenta um paradoxo: se insensibiliza no trabalho árduo, no seu afã de produzir, consumir, exportar, importar, em ser aquilo que as outras cidades esperam que ele seja, o que a nossa economia conclui ser o correto... e, não obstante, ele acalenta na sua gente sorridente uma imensa ternura, um inexplicável enternecimento pela vida, uma comoção que se prende às luzes noturnas, que se deposita na cerveja repartida entre o estampido silencioso de explosões psicodélicas, na sempre singular ficção da realidade... é uma cidade onde a voz dos escritores se ergue em sarais recônditos, intimistas sublevações contra a massificação da essência humana... é uma cidade que se faz os ferros do trabalho bailarem nas almas humanas, ao som de um Festival de Dança que se estende pelos anos afora...&lt;br /&gt;O lugar em que vivo é úmido, a chuva goteja rotineiramente no chão. Não há encanto maior que a chuva iluminada na noite pelos lampiões, porque nos penetra aquela tranqüilidade ancestral que regozija e torna o homem melancolicamente feliz. O lugar em que vivo é mesquinho de verde. Mas apresenta aprazíveis e modernas florestas de cimento.&lt;br /&gt;Joinville, lugar indescritível... o mistério do florescimento da alegria na aridez das máquinas, nos ângulos retos que delineiam o rosto desta cidade dos príncipes... talvez Joinville, meu lugar de vivências, minha realidade cotidianamente revista e revisitada, seja apenas uma cidade grande tentando entender-se pequena, lutando para não se desagregar, mosaico em desacordo. Mas o que vale é a chuva, que cai enquanto escrevo estas palavras e me deixa melancolicamente feliz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-6166991831306980364?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/6166991831306980364/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=6166991831306980364' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/6166991831306980364'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/6166991831306980364'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/10/o-baile-de-uma-cidade-de-ao-e-concreto.html' title='O BAILE DE UMA CIDADE DE AÇO E CONCRETO'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-5651805564174476324</id><published>2008-09-12T18:36:00.001-07:00</published><updated>2008-09-14T13:25:25.915-07:00</updated><title type='text'>Café de mulher</title><content type='html'>Minhas mãos estão vazias – nelas reside o ar perplexo do silêncio. Olho-as, esfrego-as nas coxas, deitado na cama, olhando fixamente o livro que atirei para um canto. Bocejo ao final de algum tempo, as molas da boca distendem-se – nnnnnnnnnnnnn- contraem-se finalmente, encerram o aborrecimento na boca seca. Serão horas quais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cozinha, ouço um barulho. Querido, quer café? Café sorvido no sopé de algo, relegado chulé - miasmas vaporosos... Café, quero-o ou não? Café ou não café? Não respondo, fico resmungando café não devia rimar, devia sumir sumir sumir – evaporar... Quer café, querido? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quero o mundo, Lourdes, quero o mundo e seus tormentos!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não responde, está adormecida em sua sonolência conjugal. Não entende por que eu desejo a amplidão enfumaçada do mundo, não compreende afoitamente que na nossa cama do final de noite já não há espaço para café ou espumas, que nossos corpos estão frios como o colchão insensível e insuportável que nos acompanha madrugadas adentro... imersos em sonos e aborrecimentos estamos, e sonolentos e aborrecidos somos... Quer café? Quer amor? Quer a certeza utópica de que somos diferentes e incompatíveis? Quer tentar reencontrar meu corpo de adolescente nesse corpo de mulher gasta e empoeirada? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourdes surge na minha frente. Duas chávenas na mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Trouxe café. Vai te fazer bem. Você está tão aborrecido...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus olhos estão fechados. Cantarolo, finjo-me distraído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero café. Não quero café. Não quero...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fita-me impaciente. Ficamos em silêncio. E entre o nosso silêncio pende, impotente, o brilho estático da lâmpada elétrica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VANILDO SELHORST DANIELSKI&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-5651805564174476324?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/5651805564174476324/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=5651805564174476324' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/5651805564174476324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/5651805564174476324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/09/caf-de-mulher.html' title='Café de mulher'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-5605656433640784789</id><published>2008-07-30T16:56:00.000-07:00</published><updated>2008-07-30T17:12:36.223-07:00</updated><title type='text'>Um beijo só, só um beijo...</title><content type='html'>Manhãs devassadas por sóis escarninhos. Três: um no céu, dois nos olhos dela. Escutava-a, vendo suas palavras enlaçarem fios irisados, teia que se emaranhava no seu rosto ávido de garoto. Desejo calado de  beijá-la. Um beijo, um beijo só...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viu-a muitas vezes, não externou nunca o que sentia. Conservou na lembrança uma reminiscência esmaecida das feições dela, os lábios rosados úmidos pedindo um beijo, um beijo só... O tempo chorou anos, e ele, feito homem barbudo - pupilas miúdas- nunca pôde resgatar a lucidez perdida numa madrugada de desespero, em que miavam gatos e a lua ressonava seu ronco de luz... Jaz atualmente num sanatório, fortemente imobilizado, a morder os lábios que não roubaram um só Beijo, um Beijo só...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VANILDO SELHORST DANIELSKI&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-5605656433640784789?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/5605656433640784789/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=5605656433640784789' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/5605656433640784789'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/5605656433640784789'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/07/um-beijo-s-s-um-beijo.html' title='Um beijo só, só um beijo...'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-9186061244103807426</id><published>2008-07-23T16:35:00.000-07:00</published><updated>2008-08-06T15:43:06.133-07:00</updated><title type='text'>CASE</title><content type='html'>Entramos num bar pestilento, repleto de mesas de plásticos e homens gargalhando, bêbados. João Henrique mostra certa repugnância, mas faço-lhe notar que um bar ou boteco metido no subúrbio não tem outra serventia senão embriagar na noite os trabalhadores do dia. Ele esboça um meio sorriso, que lhe imobiliza no rosto uma atmosfera de orgulho tão repugnante quanto os bêbados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentamos num canto mais discreto, pedimos uma cerveja e nos deixamos ficar olhando fugazmente os automóveis que rodam na rua asfaltada. João Henrique está absorto. A bebida chega e ele sorve num instante todo o conteúdo do seu copo, silencioso. Foi ele quem me chamou, então vou deixar a ele a iniciativa de começar a conversa, penso.&lt;br /&gt;Esvaziamos a garrafa em silêncio. O dono do bar achega-se cheio de bigodes e toalhas, pergunta se queremos mais cerveja. João Henrique acede com um gesto, os olhos fitos na espuma que escorre vagarosa pelas bordas do copo. Só se resolve a falar quando vê seu copo repleto novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Valério, você é um grande amigo, sabia?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois eu queria conversar um negócio contigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Diz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amanhã eu me caso, como você sabe. E eu queria te pedir uma opinião. Nem é bem uma opinião, que opinião você já emitiu, e muitas. Quando conheceu a minha noiva, me disse que ela parecia ser uma mulher muito boa, submissa, carinhosa, compreensiva. Concordei com tudo naquela ocasião, e ainda agora concordo plenamente. Não nutro qualquer desconfiança quanto ao caráter dela, está me entendendo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou”, respondo, levemente interessado naquela lengalenga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois bem”, ele aperta o copo com tal ímpeto que chego a recear que o vidro se parta entre seus dedos, “amanhã eu me caso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Henrique faz uma pausa, bebe um gole da cerveja, lambe os lábios com lentidão filosófica. Percebo que está um tanto emocionado, conjecturo que o álcool talvez já esteja afrouxando sua estiolada resistência ao sentimento. Tem os olhos brilhantes, tenho a impressão de que estão úmidos. Ele finalmente fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, quero te perguntar. Acha que devo me casar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobressalto-me com a indagação. Olho-o muito tempo, atônito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele baixa a voz, inclina-se até sua cabeça fatigada tocar nas mãos imóveis em cima da mesa. Faz sumir o rosto nos braços sobrepostos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acha que devo me casar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mordo os lábios, olho os bêbados que agora contam piadas. “O japonês foi ao médico, e...” a pergunta me põe numa incômoda obrigação, percebo que o miserável preza demasiado a minha opinião. O que responder-lhe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você já não a ama?”, inquiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amo, amo apaixonadamente”, responde João Henrique, erguendo o crânio. A iluminação fumacenta do bar desvenda feições transtornadas por um sofrimento indizível. “Ela é minha vida. Quando a olho, mesmo depois destes anos de noivado, sinto a mesma chama, o mesmo calor de quando começamos a namorar. A presença dela me faz bem, muito bem! Não hesitaria em passar a eternidade com ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela tem algum físico? Mau gênio?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. E a questão não é essa.’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se imobiliza novamente, extremamente infeliz. A cerveja começa a esquentar nos nossos copos. Os bêbados olham-nos disfarçadamente, começam a diminuir a bulha: os embriagados sempre respeitam a dor de outro embriagado. Mas não, João Henrique não está embriagado. Ele agora se levanta e vai espiar o céu, lábios apertados, olhos injetados. Deixo-o refletir à vontade, enquanto vou tecendo conjecturas. Ele volta mais sereno, mas o desespero gira em espiral nos seus olhos, torvelinho de segredos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E então?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Devo me casar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, João Henrique, essa é uma decisão que só cabe a você. Eu não tenho nada a ver com isso...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sofrimento espreme-lhe o rosto, pela primeira vez vejo-o suplicante. Durante meia hora procura me provar, com os argumentos mais arrebatados, como será bom para ele casar-se com a mulher que escolheu para si, como sua felicidade será inafiançável, estupenda, imensa como o horizonte... aos poucos o tom apaixonado vai recrudescendo, e toda sua alma se projeta nas palavras que vai me atirando vertiginosamente, com gestos bruscos e desvairados... observo-o, cauteloso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ora, caro João Henrique, você sabe o que fazer. Está na cara que o que mais desejas na vida é se ligar a essa moça...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele está ofegante, vermelho. Seca com o lenço o suor que lhe poreja a fronte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso eu sei! O que eu quero é que me você me responda aquilo que eu quero ouvir...’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A surpresa assalta-me os pensamentos com tal furor que entreabro os lábios, perplexo. Fito-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um momento... essa pergunta que estás me fazendo há meia hora... você a fez a todos os seus amigos, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É verdade. É sim, Valério.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o que eles responderam?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O mesmo que você: que a decisão só cabia a mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E aposto que toda a sua família também disse isso...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Todos. Todos disseram o mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A língua umedece-me, preocupadamente, os lábios secos. Finalmente entendo o que João Henrique deseja, olho-o com inexprimível piedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Certo, João Henrique, certo. Não sofra mais. Case. Case, e seja feliz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Henrique soergue a cabeça que se afundara novamente nos braços cabeludos, e olha-me com inequívoca alegria, sorrindo o sorriso mais desgraçadamente feliz que já contemplei. A voz lhe vacila, e ele só consegue emitir uma rouca e enternecida &lt;br /&gt;palavra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As lágrimas sulcam-lhe o rosto, o rosto recupera paulatinamente a cor ordinária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A emoção envolve-o compactamente, João Henrique perde a antes sólida compostura humana e transmuta-se numa chorosa massa de carne, que repete um odioso mantra de genuína e desesperada felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cena me enfada. Levanto-me e deixo sobre a mesa uma nota amarfanhada. Faço um sinal ao dono do bar, que me compreende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado... obrigado!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não há de quê.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retiro-me célere, deixo-o fruindo, esparramado na cadeira, sua sórdida e indesculpável pusilanimidade. Tomo um táxi, e pensativo me recosto no banco. E pensativo me permito observar a noite opaca, de estrelas esmaecidas e semáforos impiedosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VANILDO SELHORST DANIELSKI&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-9186061244103807426?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/9186061244103807426/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=9186061244103807426' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/9186061244103807426'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/9186061244103807426'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/07/case.html' title='CASE'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-368066862807043293</id><published>2008-06-17T14:46:00.000-07:00</published><updated>2008-06-19T07:15:47.596-07:00</updated><title type='text'>Rosário de sonhos</title><content type='html'>José Bueno de Milachia sonhou a vida inteira. Mesmo acordado as imagens deslizavam sobre seus olhos, escorriam silêncios e convergiam para um receptáculo bojudo: a velha ampulheta do Santuário Apofênico. José sobressaltava-se com facilidade, via espelhos imaginários à sua volta, pressentia reflexos estrambóticos para sua figura acesa e ossuda, que suscitava risos aos colegas, e calava-se, ensimesmado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao morrer, teve um sonho fugaz. Sonhou que todo o arsenal onírico que engendrara na vida entrelaçava-se num rosário endurecido, machucado já por futuras ladainhas. Quando um lampejo de compreensão lhe assomou nas reflexões desvairadas, percebeu desolado que já baixara a noite, a triste noite da inexistência, e que não era mais José Bueno de Milachia. Tornara-se sonho, punhado de irrealidade, desejo. E silêncio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-368066862807043293?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/368066862807043293/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=368066862807043293' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/368066862807043293'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/368066862807043293'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/06/rosrio-de-sonhos.html' title='Rosário de sonhos'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-8391952309584458977</id><published>2008-05-18T16:00:00.000-07:00</published><updated>2009-10-27T05:25:41.733-07:00</updated><title type='text'>Gravata e Terno</title><content type='html'>&lt;em&gt;TEXTO SUPRIMIDO TEMPORARIAMENTE...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;PARTICIPANDO DE CONCURSO...&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-8391952309584458977?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/8391952309584458977/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=8391952309584458977' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/8391952309584458977'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/8391952309584458977'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/05/gravata-e-terno.html' title='Gravata e Terno'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-1241408946495195401</id><published>2008-04-30T17:10:00.000-07:00</published><updated>2008-04-30T17:16:52.643-07:00</updated><title type='text'>Ponto de Ônibus</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;Eu esperava o ônibus, resignado. O sol batia-me no rosto, ofuscava-me os olhos. Cobria-os com a mão, mas a claridade, coada pelo intermúndio dos dedos, fazia arde as escleróticas avermelhadas (tinha dormido mal, na noite passada). Nisto aproximou-se uma mulher trigueira, enorme, matronal. Perguntou as horas. Tinha sardas na pele, um nariz grosso que se assemelhava a um nariz suíno, e olhos azuis, cristalinos. Respondi e ela agradeceu delicadamente, num gesto que deve ter considerado oportuno. Calei-me. A mulher também emudeceu. Mas continuou a olhar-me obliquamente com seus olhos enormes, sorrindo levemente. Senti-me aborrecido, muito mais do que até então me sentira. Sentia um insidioso asco infiltrar-se nos meus pensamentos, um asco persistente que vazava daquele oceano circular que circundava as pupilas da mulher. Encolhi-me, nervoso. Estalava os dedos, apertava-os uns contra os outros, mirava a calçada de concreto cinza, cheia de frinchas nas quais crescia um matinho viçoso. Afinal levantei-me – o sol golpeou-me o rosto com energia, mirei o semblante da mulher – perturbaram-me os seus olhos agora translúcidos, mudos, ansiosos, desgraçadamente claros – levei as mãos à fronte com se estivesse verificando a sua temperatura ou secando o suor... &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;inquietantes, os olhos da mulher... perplexo, os olhos ardentes, &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;comecei a caminhar aceleradamente, sem voltar-me. Senti atrás de mim o ronco do ônibus que se aproximava... não me importei. É preciso andar, pois há perigosos, mortíferos olhares num ponto de ônibus. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-1241408946495195401?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/1241408946495195401/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=1241408946495195401' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1241408946495195401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1241408946495195401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/04/ponto-de-nibus.html' title='Ponto de Ônibus'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-8148035655175313075</id><published>2008-04-18T06:31:00.000-07:00</published><updated>2008-04-18T06:34:51.954-07:00</updated><title type='text'>Pegajosidade, barro - e sangue</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Para Lize, um presente sujo de afeto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Numa tarde inexpressiva, Homem e Mulher caminham lado a lado numa rua de areão úmido, coberto por uma pegajosa mistura de água e barro.&lt;br /&gt;Não se olham. Seus rostos estão virados para frente. Caminham inexoravelmente calados, embora falem banalidades. Porque no fundo de suas palavras há um constrangido silêncio.&lt;br /&gt;Homem está comovido por estar tão próximo de Mulher. Sente por ela qualquer coisa que o agrada, uma afeição doce que lhe escorre pelo interior do corpo até sair transvertida num aliciador sorriso permanente. Deseja-a também, mas isso é outra história. Desejo se sente por qualquer mulher bonita. Homem experimenta um sentimento perplexo de inesperada suavidade perante Mulher, é tomado por carinhoso ardor quando está com ela; um ardor que o deleita e o obriga a procurá-la com o olhar ávido, um ardor que o obriga a tocá-la num gesto discreto, sem alarde. Ama-a?&lt;br /&gt;Os passos de Mulher são céleres. Seu tênis é preso rapidamente pela sola ao chão viscoso, mas liberta-se rapidamente, e a marcha continua. Seu pensamento é recôndito, se oculta nas regiões abissais de um oceano sombrio, surpreendentemente castanho na superfície e negríssimo no fundo. Mulher sorri amiúde para Homem. Sente por ele apenas amizade, a desinteressante e banal amizade do cotidiano. No íntimo talvez o despreze, mas não ousa afirmar isso a si mesma: limita-se a sorrir, meiga, invólucro de feições.&lt;br /&gt;Os sentimentos dos dois emaranham-se numa teia larga, invisível, incontornável e inescapável para ambos. Estão unidos insensivelmente, hesitantes e cegos. Buscam-se por motivos vários – que não precisam ser narrados, porque são simples, fáceis, metafísicos, fortuitos. Ocultos e sonolentos.&lt;br /&gt;Homem e mulher caminham lado a lado, na tarde inexpressiva. Jamais chegarão ao seu destino, pois o instante que os une é eterno e intransponível. Buscam-se na escuridão, apalpando-se à distância. São eles mesmos, indesculpavelmente eles mesmos. Caminham juntos, cegos e silenciosos, sob o céu cinza, fora do mundo. E do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Vanildo&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-8148035655175313075?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/8148035655175313075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=8148035655175313075' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/8148035655175313075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/8148035655175313075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/04/pegajosidade-barro-e-sangue.html' title='Pegajosidade, barro - e sangue'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-4879488328008343444</id><published>2008-04-01T17:59:00.000-07:00</published><updated>2008-04-01T18:04:17.152-07:00</updated><title type='text'>O Enterro</title><content type='html'>&lt;em&gt;  Para A., como extirpável lembrança&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra breve e as construções cimentadas das circunvizinhanças ainda estavam intumescidas pela indecisão da aurora quando Versamann despertou. Primeiro abriu os olhos de pálpebras endurecidas e piscou-os durante algum tempo, para em seguida soerguer o tronco e olhar perplexamente o quarto. Os móveis e as paredes guardavam um modesto tom azulado que vinha filtrado das janelas cerradas. Versamann sorriu e isso o fez desinteressadamente satisfeito. Levantou-se, despiu o pijama e postou-se definitivamente nu em frente ao espelho, observando seu rosto onde pretejava uma hera negra e cabeluda.Ficou refletindo durante uns minutos, imóvel.”Como é estúpido acordar”, pensou. “O silêncio do sono se assemelha de tal forma com a morte que dormir pode ser considerado um ato vicariamente nostálgico, de substituição.” Essa reflexão o agradou tanto que atentou nela com exclusividade, tentando condensá-la num aforismo dramático, de grande efeito estilístico. “Ora, estou perdendo tempo”, ponderou, “minha mente está inventado pretextos para esquecer-se do que determinei a mim mesmo.” Sorriu amargamente, como se só agora tivesse lembrado de algo importante. “Isso, hoje é o dia do meu dever. O dever.” Coçou o queixo. O céu se recortava cor de chumbo contra a janela. Vestiu-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Credo, rapaz, você está parecendo o demônio”, disse-lhe a mãe – uma estranha figura banal – ao vê-lo vestido totalmente de preto. Versamann surpreendeu-se como fato dela estar acordava àquela hora. A mãe ficou observando-o com olhares exprobratórios e calados. Versamann notou, no espelho que se equilibrava na parede defronte dele, que sua própria pálida fisionomia dura cingia-se no vidro à loura parte posterior do crânio da mãe. Aquilo lhe comoveu indizivelmente, com uma intensidade tão exclusiva que ficou irritado com a própria comoção. “Não tenho fome”, disse sem ênfase, olhando a mesa posta. Caminhou marcialmente até a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua observou a neblina da madrugada que se fundia ao céu num movimento lento e inflexível – ou seria a sua vista fatigada de absorver a claridade do sol? Contemplou com curiosa estranheza a rua de areão úmido, as casas indistinguíveis na cerração; passou uma pessoa e Versamann não se espantou ao notar que no lugar de um rosto ela tinha uma caricata máscara embaçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versamann se sentia apaticamente desperto, a poeira milenar da raça humana o envolvia num torvelinho de cavernosas lembranças de amor, suor, sangue e sofrimento. Postou-se no meio da rua, a neblina densa ao redor de si. A boçalidade daquela rua triste não o agredia, estava já acostumado a odiá-la constantemente em suas noites sombrias perenemente atravessadas por febres e presságios. A civilização humana lhe inspirava o mesmo desprezo; não a amava como dizia a todos; a hipocrisia, ah!, a moralidade dos caminhos simplórios, o infinito temer sem reagir. Versamann vivia como uma larva repulsiva que se violentava intimamente para continuar vivendo em meio a outras larvas de igual asquerosidade; experimentava satisfação apenas na escuridão do seu quarto, bloqueado e trancado por dentro, o mundo fragmentado na janela, os fios da normalidade pendendo impotentes ante a liberdade de sua reflexão. Mas havia o sentimento, aquele sentimento que escarvava seu âmago e o suavizava – era preciso destruí-lo. Era preciso destruí-lo? Versamann dobrou fortemente os dedos em direção às palmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era preciso dar o golpe de misericórdia, dizia uma sombra negra que grassava nos seus pensamentos. Era preciso destruir à lâmina de espada e a fio de machado num golpe seco e breve, profusamente sanguíneo. Era preciso, era esse o seu dever... “A fortaleza, a fortaleza da escuridão”, murmurou Versamann ao ajoelhar-se e sentir inúmeras pedrinhas atritarem seus engonços. “É preciso! E que seja aqui mesmo”, disse ainda com convicção ao dobrar o pescoço ao golpe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando desgrudou as pálpebras, Versamann sentia uma violenta enxaqueca. Enxergou de pronto um pequeno caixão de chumbo perto de si, um pequeno caixão de alças douradas das quais pendiam, como cipós, fitas inquebrantáveis onde se podia ler em caracteres negros: Requiescat. Versamann resfolegava suando, as mãos contraídas no peito, a boca entreaberta. “Acabou, ou quase”, refletiu com amargor. Lentamente Versamann adiantou-se para o caixão, segurou as alças, preparou os músculos e as articulações, e num arranco o suspendeu. A neblina agora estava mais cerrada; era esquisito, mas o céu parecia inclinar para a terra, pois o tom de chumbo incorporava-se à neblina de tal maneira que já não se podia distinguir sequer as casas que circundavam a rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versamann começou a andar em linha reta, sem se importar em ver-se privado de enxergar o caminho. Esse detalhe tão preocupante, que o atormentaria atrozmente noutra ocasião, quase não o interessava agora. Necessitava caminhar, necessitava manter a frieza e o raciocínio claros, lúcidos... necessitava sobretudo livrar-se daquele caixão de chumbo. Sabia intuitivamente que aquela neblina o levaria a algum lugar preparado para receber o ataúde, provavelmente preparado por ele mesmo, embora não pudesse se lembrar quando nem onde. A névoa-chumbo crescia a sua volta e o envolvia como uma aura. “Sem hesitar!”, exortava a si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andou muito tempo. Perdera totalmente a noção do tempo. De vez em quando afloravam reminiscências em seu pensar embotado, mas elas eram inconsistentes e frágeis, como se fossem apenas idéias irreais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou. Devia ser um cemitério, mas um cemitério singular, sem cruzes nem leitos de pedra. Versamann caminhou até uma cova rasa e aberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia um violento calafrio eriçar-lhe os pêlos dos braços, mas continuou. Um espasmo que lhe prejudicou a precisão dos movimentos percorreu seus braços ao depositar o ataúde do sentimento parasita na cova. Cobriu-a de terra, mas sem pensar, a face inexpressiva, olhos enxutos, salgados. A neblina penetrava insidiosamente a sua pele, as veias carregavam um fluido denso, rançoso de desgosto, decepção e martirizante alívio. Matara-se? A lembrança da mãe, em especial a parte posterior do seu crânio refletido no espelho, emergiu num gemido à superfície de suas idéias, intumescida de vago desespero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cerração era total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num impulso convulso de dor Versamann ajoelhou-se sobre a cova. E mal teve de murmurar uma sílaba de reconciliação e saborear um gelado grão de são que lhe roçara a comissura dos lábios porque a neblina, num gemido compridamente silencioso, o absorveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VANILDO SELHORST DANIELSKI&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-4879488328008343444?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/4879488328008343444/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=4879488328008343444' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/4879488328008343444'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/4879488328008343444'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/04/o-enterro.html' title='O Enterro'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-4641087749648543512</id><published>2008-03-23T16:28:00.000-07:00</published><updated>2008-03-23T16:33:32.936-07:00</updated><title type='text'>Desprezo</title><content type='html'>Desprezo a simetria raivosa das ruas.&lt;br /&gt;Desprezo o típico sorriso leve&lt;br /&gt;A típica risada bem-humorada do final de tarde.&lt;br /&gt;Desprezo a penetração suave do suor na pele&lt;br /&gt;Do sal na pele&lt;br /&gt;Do amor na pele&lt;br /&gt;da rotina: na pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desprezo dissimuladamente&lt;br /&gt;O cimento prepotente dos prédios&lt;br /&gt;O brilho irônico dos automóveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desprezo sem querer desprezar.&lt;br /&gt;Desprezo o capitalismo e o socialismo&lt;br /&gt;Desprezo a flor e o lodo - conúbio - dolo&lt;br /&gt;Desprezo o lirismo e a crueza&lt;br /&gt;Desprezo. Desprezo. Desprezo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desprezo meu próprio desprezo, reticente.&lt;br /&gt;Desprezo eu próprio - espinho, coluna de sombras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-4641087749648543512?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/4641087749648543512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=4641087749648543512' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/4641087749648543512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/4641087749648543512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/03/desprezo.html' title='Desprezo'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-7255049468179311420</id><published>2008-02-18T08:14:00.000-08:00</published><updated>2008-03-24T16:22:40.272-07:00</updated><title type='text'>Possível impossível</title><content type='html'>Converso eu com Anônimo, uma prosa filosófica e metafísica que se espicha pelos gritos e risadas do recreio e tritura-se na mastigação opressiva dos que nos rodeiam. Subitamente eu pergunto: Anônimo, quer ouvir uma história?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depende, Anônimo responde. É um conto, um peça de teatro, qualquer coisa assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou pensando em escrevê-la sim, mas não decidi ainda, digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conte-a, diz Anônimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo: toda a história deveria começar com Era uma vez. Essa expressão congela o tempo: era naquele tempo, e em nenhum outro, era naquele tempo e por isso era único, indivisível, indevassável. Portanto começarei com Era uma Vez. Era uma vez Homem-garoto, um adolescente tímido e introspectivo, frio e silencioso. Gostava de dizer reflito e concluo, e tinha espinhas na testa e no queixo, embora poucas. Pois bem. Homem-garoto não tinha namoradas nem amores, embora desejasse intimamente as duas coisas. Almejava tanto que um dia apaixonou-se duplamente. A primeira paixão, a mais forte, tinha por alvo uma mulher morena, de rosto harmonioso e suave, uma inteligência sensível e independente em aparência. Amou-a, mas não confessou o seu sentimento: ela parecia mais velha que ele, dava-lhe conselhos carinhosos, tratava-o apenas polidamente, com certa ternura superior. A segunda paixão surgiu aos poucos: a menina era baixinha, de sardas no rosto, um nariz fino e bonito, um par de olhos de mel, mas Homem-garoto gostava mesmo era de sua boca, uma boca vermelha e polpuda, sempre túmida. Ela escutava-o: ficou sabendo assim de seu niilismo latente, suas dúvidas existenciais pálpitas, seus ideiais literários. Homem-garoto apaixonou-se pelas duas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspendo um momento a história, observo uma formiga carregar um ínfimo pedaço de folha pela calçada de concreto. Anônimo ordena: continue, continue, o que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho-o um instante nos olhos - Anônimo tem um ar bovino, de quem se acostumará à canga e irá carregá-la ao pescoço pelo resto da existência - volto a olhar para a formiga: impossibilitado de escolher, incapaz de confessar seu amor dualista, Homem-garoto perdeu-as - a primeira paixão foi sufocada, a segunda paixão afastou-se lentamente, mudou de turno no colégio. Meses depois, como a lembrança fantasma das duas mulheres o atormentasse, Homem-garoto imaginou um velório solitário, encerrou o carinho e o afeto e a saudade em caixões de chumbo, e enterrou as reminiscências em covas rasas. Chegou a recitar a oração dos mortos em latim, uma oração achada por acaso num livro de citações entre traças e um sentimento áspero de abandono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calo-me, desviando o olhar para uma nesga de muro mal pintado. Anônimo fixa-me detidamente e indaga: isso é uma história?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para ele, sustento meu olhar de oceano e areia nas suas pupilas bovinas. Há um entendimento acre entre nós dois. Viro as costas lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é uma história, retruco ao ir embora. Foi uma história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-7255049468179311420?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/7255049468179311420/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=7255049468179311420' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/7255049468179311420'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/7255049468179311420'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/02/possvel-impossvel.html' title='Possível impossível'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-1268659943061289552</id><published>2008-01-29T13:18:00.000-08:00</published><updated>2008-01-29T15:21:58.651-08:00</updated><title type='text'>Nota (de cinco reais)</title><content type='html'>Segunda-feira, manhã. O homem – engravatado, sapato novo e terno – aproximou-se do mendigo sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mendigo – todo coberto, uma barba sebosa e negra – não tinha cuia. Tinha uma expressão animosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Bom dia."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mendigo permaneceu quieto, olhando a calçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Aqui está", o homem engravatado estendeu-lhe uma nota. "Para você comprar algo para comer."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não preciso do seu dinheiro, senhor Gravata", disse o mendigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem apertou os olhos. Intrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Como?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não sabe", continuou o mendigo rindo e arreganhando os dentes, "o senhor não é mais ninguém. Deixou de ser um homem há muito tempo. Hoje é apenas Gravata, Sapato, Terno, Meia, Calça Social e Cueca."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem abriu os lábios para falar, mas fechou os olhos e desistiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tenho pena do senhor. Não é mais ninguém. Nem nu o senhor chegará a ser um homem."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mendigo calou-se, olhou com desdém a nota de cinco e repetiu: não preciso do seu dinheiro, senhor Gravata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem descerrou as pálpebras, fitou-o algum tempo. Intrigado. Num arranco flexionou fortemente os joelhos - um de cada vez - e começou a andar apressado, os braços e as pernas rígidos, a mão direita no queixo, pensativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mão esquerda apertava ainda a nota (de cinco reais).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-1268659943061289552?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/1268659943061289552/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=1268659943061289552' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1268659943061289552'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/1268659943061289552'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/01/nota-de-cinco-reais.html' title='Nota (de cinco reais)'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-3110265372464907856</id><published>2008-01-08T05:05:00.000-08:00</published><updated>2008-01-08T05:30:25.589-08:00</updated><title type='text'>Árvore salgada</title><content type='html'>À sombra da árvore salgada eu sentei.&lt;br /&gt;O choro arvorava segredos.&lt;br /&gt;Sentei, e fiquei.&lt;br /&gt;Cascastas borbulhantes de sal despencaram das folhas&lt;br /&gt;E o silvo da clorofila calou meus olhos vendados.&lt;br /&gt;Havia paz, e febre.&lt;br /&gt;Adormeci molhado de orvalho salgado&lt;br /&gt;E ceei o despencar da noite na sombra da árvore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segredos despencados, furtivos.&lt;br /&gt;Silêncio de penumbra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-3110265372464907856?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/3110265372464907856/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=3110265372464907856' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/3110265372464907856'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/3110265372464907856'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2008/01/rvore-salgada.html' title='Árvore salgada'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-2279577268863617168</id><published>2007-12-21T14:17:00.000-08:00</published><updated>2007-12-21T14:21:03.711-08:00</updated><title type='text'>entre fumaça e cerveja...</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;A fumaça enovelava-se um instante no seu rosto e dissipava-se lânguida, lenta, no ar barulhento. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Bem, o que pretende fazer agora?”, perguntou.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Vou procurar outro emprego, é lógico”, respondi sem pensar muito e tentando entender a necessidade da pergunta. Não posso ficar sem trabalhar.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Não sou idiota”, retrucou Márcio. “Qualquer um precisa trabalhar. Estou perguntando sobre outros projetos, novas atitudes, novas perspectivas....”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Sorri.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;“Ainda não sei. Não tive oportunidade de pensar descansadamente, sem pressão alguma . E aliás, &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;mudar para quê?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Márcio olhou-me com olhos meio apertados, os beiços molhados de cerveja, a camisa encharcada de suor. A barriga sobressaía-lhe muito, queria arrebentar a roupa num repelão obeso. Barulho por todos os lados, e uma atmosfera pesada. Mal-estar.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;A fumaça sufocava-me o peito, dava-me vontade de sair dali, trancar-me em casa, ler algo, dormir. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“É preciso mudar”, disse com um timbre agudo. “A mudança é necessária, viver é estar em transformação...”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Um lugar comum, essa frase”, interrompi aborrecido.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Não importa, é uma verdade. Você precisa mudar. O que acontece sempre com você? Perde o trabalho, consegue um outro logo em seguida, se tranca na rotina, não vive. É preciso degustar, saborear os prazeres, os sofrimentos, os ódios, os rancores, os amores, enfim, tudo o que se pode e tem direito de viver.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Gosto da minha vida”, olhei-o entediado. Não quero conselhos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Intratável!”, resmungou.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Gargalhei sem vontade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“O que diz? Está reclamando do quê? Estou apenas defendendo a minha independência, o meu direito de viver conforme me parecer melhor e mais certo. Livre arbítrio.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Acredita estar defendendo sua independência, no seu livre arbítrio?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Óbvio.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Mesmo com o sistema podre e suicida, mesmo com a manipulação da comunicação e a imparcialidade da imprensa?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Sim.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Márcio calou-se, sondou meus olhos com um movimento lento de cabeça, inclinou-se para mim, estirou o beiço:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Posso lhe dizer algumas coisas? Posso lhe comunicar alguns pensamentos que cultivo na cachola? Posso?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Se não encher o saco além do tolerável, pode.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Márcio bebeu um copo de cerveja, lambeu o bigode branco que formou-se acima dos seus lábios, expeliu algumas baforadas preliminares, e começou:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Sabe, fala-se muito de manipulação das pessoas pelos meios de comunicação, de corrupção, de violência, de mudanças sociais necessárias à felicidade do mundo, de Deus e do Diabo. Eu, por mim, acredito que a imprensa e o governo estão mancomunados para nos usurpar a reflexão, a vontade e a inteligência, mas é somente uma opinião de esquerda, como a de tantos outros. Há as opiniões de direita, que dizem exatamente o contrário, mas não se pode ter tudo no mundo, as pessoas não podem mesmo pensar igual. Aliás, não me importo se as pessoas erram quando pensam segundo a direita ou se acertam quando pensam segundo a esquerda. Ou vice-versa, claro, sou democrático! Também há as opiniões de centro, mas não interessam agora. O que interessa é que se fala e pensa de muitas maneiras neste mundo, às vezes com sinceridade, às vezes com maldade. As pessoas sabem do que falam, bem ou mal talvez, mas sabem. Contudo, embora elas conheçam mais ou menos aquilo que consideram ruim, corrupto ou maléfico, pois a maioria realmente diz em público palavras coerentes sobre esses assuntos indigestos, embora haja a consciência, não vejo uma grande iniciativa de mudança nesses homens e mulheres. Não parece paradoxal? Sabe-se o que deve mudar na sociedade, todavia não se mudam ou eliminam os defeitos. Eu, particularmente, vejo apenas a manutenção da ordem, a continuidade da corrupção, das negociatas, da marginalidade, de tudo o que há de ruim ou de bom e que não seja relativo à tecnologia; são poucas as exceções. Acontecem, claro, manifestações, protestos, algazarras, debates, mas a verdade é que não se muda muita coisa nessa confusão toda. A essência permanece igual, o povo continua joguete dos poderosos, o sistema se cristaliza. Há uma consciência da tragédia, entende?, mas não há um esforço maciço que possibilite uma mudança que a suprima, ou por outra, não se coloca em prática o ideal da mudança. Ela fica como uma utopia, mais um dos desejos irrealizáveis do ser humano. Pode-se alegar que a mudança não ocorre porque a burguesia a impede, porque o governo não a estimula, mas pensar assim é tirar de uma mão para pôr na outra. &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;Nunca me conformei com essa questão.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Calou-se um instante, fez descer pela garganta mais um pouco de cerveja. Distraída, sua mão direita batia o toco de cigarro no cinzeiro. O suor reluzia-lhe o rosto escarlate de eloqüência, os gestos aceleravam-se. Distante, eu ouvia o barulho do bilhar, e a fala dos homens do poker. Que horas seriam?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Mas a resposta é simples”, retruquei enfadado, “ou a maioria da população não sabe que é manipulada e explorada da maneira como você diz, ou é reacionária.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Pensativo, sacou um cigarro da carteira, olhando a bunda de uma morena que passava. Continuou, os olhos oblíquos fitos na moça:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Não acredito nisso, amigo. Reacionário? Alguém só é reacionário quando a realidade que enxerga lhe agrada, e duvido que a realidade do nosso belo mundo cor de fumaça agrade ao povo que batalha diariamente por um pedaço de pão e um teto confortável. Ora! Há vivalma que se conforme em levar chibata no lombo a vida inteira? O povo sabe sim que é explorado e enganado, mesmo que seja de uma forma vaga. Sabe. A questão é: por quê?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Não sei”, respondi contraindo os lábios. “Masoquismo despretensioso de prazer sexual, talvez.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Improvável, improvável. O fato é que o homem não é naturalmente reacionário, há uma série de grandes feitos e mudanças que comprovam a capacidade do ser humano para modelar seu destino.” &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Perguntei irônico:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Não foi você quem disse não ver as transformações acontecerem, ainda há pouco? Como pode dizer que a humanidade tem o poder de mudar se antes não concordava com isso?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Desviou o olhar da bunda da morena:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Eu quis dizer outra coisa, você entendeu. Se não houvesse mudança na sociedade, ainda caminharíamos sobre quatro patas e viveríamos nas cavernas. Não se faça de irônico, que aí não há conversa que se sustente. Mas, de qualquer forma, essas minhas idéias são vagas, não exija delas uma responsabilidade excessiva. São inocentes como crianças.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Ótimo, continue”, pronunciei satisfeito, contendo-me para não gargalhar da cara atrapalhada de Márcio. O infeliz só soltava a língua quando estava bêbado, embora não demonstrasse que o estava.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“É uma pena que você não escute as coisas a sério. Basta estar aborrecido, e pronto!, despeja azedume por essa boca respingada de cerveja. Mas a verdade é que a fome e a necessidade crua e física forçam a transformação. É um ato automático, natural. Não importa. Eu dizia que nunca me conformara com essa dúvida. Tudo isso é um ponto de interrogação, e eu detesto as interrogações e sua perplexidade. Afinal, se há um espírito empreendedor no bicho-homem, algo que o diferencia dos outros bichos e o faz mudar e evoluir racionalmente, por que uns poucos têm esse sopro, e a maioria não? Não seria mais correto pensarmos que todos o possuem, mas que não o usam? Até aí tudo bem, nada que não tenha sido dito e repetido por toda a terra, em todos os séculos dos séculos. Não é novidade para ninguém. Entretanto, temos novamente a consciência da situação e a conseqüente e inexplicável inércia. Por quê?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Aspirou o cigarro com força e expeliu demoradamente a névoa cinzenta.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Então, pensei: definitivamente, existe algo que constrange o ser humano, um quê impeditivo ao empreendimento, à ousadia. Talvez seja a rotina, que atua como uma redoma invisível e exaspera e destrói a criatividade. Marquei esse ponto como fixo: a rotina é uma das responsáveis pela inércia social, mais que toda e qualquer desinformação ou mazela física e moral. A rotina é uma proteção, uma garantia de vida mais ou menos segura, um caminho sem muitas surpresas que pode ser trilhado sem grandes sobressaltos. Nada melhor para quem outrora precisava caçar dia após dia caso quisesse viver, abrigando-se em tocas e tiritando de frio à noite. Percebi isso, perguntei-me: entretanto, esse também é um abismo, uma atitude que embrutece e faz esquecer do papel social a ser desempenhado por cada um, e as pessoas devem saber disso. Por que aceitam esse abismo, se sabem que isso as faz mais egoístas, alienadas e enganadas?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Suas idéias só têm porquês”, interrompi, “não têm coisa melhor para me dizer? Por exemplo, um plano sanguinário de lavagem cerebral.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Preocupado em catar palavras e olhar disfarçadamente as nádegas da morena, não prestou atenção na zombaria. A garrafa só tinha a esmola de algumas gotas de espuma, a carteira de cigarro esgotara-se no ar, estacionada no teto sem ventilador. Eu sentia desejos de xingar todos os bêbados que se acotovelavam no balcão, os jogadores de sinuca, as mulheres de bocas vermelhas que não seriam minhas. Tinha dor de cabeça, um suor viscoso grudava-me as roupas no corpo. Inutilidade escutar aquelas idéias. Teimava ouvi-las, nem sei por que: provavelmente desejava descobrir se continham qualquer coisa que prestasse. Que eram interessantes, eram. Só não eram compatíveis com prosa de bar. Paciência.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Por que aceitam isso?” , repetiu. “Confesso que fiquei muito tempo refletindo. Esgotei os olhos na penumbra da noite, pensando, pensando... é complicado realmente, e talvez não haja uma solução perfeitamente veraz e indiscutível. Por fim, encontrei uma explicação mais ou menos satisfatória.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;Libou os milímetros de cerveja que ainda restavam no fundo do copo, fez roçar a língua na espuma:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“O sofrimento. A humanidade tem medo do sofrimento. A vida instável, a insegurança, o indevassável futuro, isso tudo faz sofrer. Imagine o fado da vida sem rotina, atormentada pelo sofrimento: não saber como será o amanhã, não possuir garantias de nada, não ter certeza da utilidade da vida, cultivar dúvidas, ter de procurar e na maior parte dos casos inventar respostas... o sofrimento acabrunha o ser humano, amigo. Atrevo-me mesmo a dizer que ele prende-se ao homem como um estigma, um fado, uma sina da qual ele não pode livrar-se. O que faz alguém que, não podendo libertar-se das cadeias, sente necessidade de viver? Procura esquecer-se delas, seja por meio de um deus consolador da incerteza, seja por uma felicidade relativa. Em suma, a solução é a fuga. Por que pensar nas mudanças sociais, no modelar a realidade para que ela seja bela, se para chegar à felicidade social é preciso sofrer de maneira insólita, imprevisível? As pessoas tem medo do sofrimento imprevisível: o sofrimento do cotidiano, esse é contornável, aceitável. O maior medo é o do imprevisível. A estabilidade, o futuro mais ou menos programado, a certeza de uma sociedade que mesmo injusta é tolerável, pois permite mediocremente a sobrevivência e uma remota ascensão, são garantias que cansam, enfadam, mas sustentam, dão forças, estimulam. É medíocre, é torpe, é covarde, mas é uma solução. Aliás, a mediocridade é confortável, já que não espelha a solidão, a qual causa um horror indizível na maioria dos homens deste planeta. “&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Quer dizer que para você o homem é prudente, inerte e lento nas mudanças sociais porque tem medo de sofrer de forma inusitada? É isso?”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Mais ou menos.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Nada mal. É uma teoria.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Como qualquer outra.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“E tem a vantagem de jogar a culpa, como a maioria das outras, para cima de algo abstrato. Interessante.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“A rotina é criticada, mas permanece, entende? Todos gostam de reclamar da vidinha cotidiana, mas a verdade é que preferem essa solução à instabilidade de uma sociedade em vertiginosa transformação. É preferível o sofrimento conhecido ao desconhecido. É uma garantia, sabe? Para esquivar-se do sofrimento, é admissível até sacrificar a originalidade, a mudança social, pelo futuro programado e a felicidade barata do egocentrismo. É assim que penso.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Bom. Mas continuo aborrecido.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;“Então vá, leia alguma coisa, durma, e amanhã continue também você a fugir do sofrimento. Se ainda tivéssemos cerveja, proporia um brinde à rotina. Já estou bêbado mesmo, diabo! Até amanhã. Vá dormir. Eu ficarei por aqui, tentarei a sorte com aquela morena ali. Viu que rabo? Vá dormir, cultive a rotina, fuja do sofrimento. Eu fico por aqui.”&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 54pt;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-2279577268863617168?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/2279577268863617168/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=2279577268863617168' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/2279577268863617168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/2279577268863617168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2007/12/entre-fumaa-e-cerveja.html' title='entre fumaça e cerveja...'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-7324991663908984211</id><published>2007-12-15T15:57:00.000-08:00</published><updated>2007-12-15T16:06:52.619-08:00</updated><title type='text'>Casa Velha</title><content type='html'>Um ermo. Mato profusamente verde.&lt;br /&gt;Reboco desnudando tijolos encarnados.&lt;br /&gt;Madeira velha  enredando cupins.&lt;br /&gt;Telhado escorrendo fiosdelágrimasdetempo&lt;br /&gt;Enlaçando nós-cegos ao céu sempre novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As árvores entoando a canção&lt;br /&gt;(fúnebre)&lt;br /&gt;do vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casa- ruína indiferentemente&lt;br /&gt;Sendo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-7324991663908984211?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/7324991663908984211/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=7324991663908984211' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/7324991663908984211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/7324991663908984211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2007/12/casa-velha.html' title='Casa Velha'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-3897855388138005176</id><published>2007-12-09T05:19:00.000-08:00</published><updated>2007-12-09T05:29:53.958-08:00</updated><title type='text'>Caderneta de Telefones</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" face="arial" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;As gavetas cheias de papéis velhos, crônica dos anos. Decido arrumá-los. É uma tarde, feriado. Espalho pelo tapete a infinidade de documentos e começo a olhar um por um, amassando alguns, separando outros. Encontro uma caderneta de telefones velha – muito velha e já inútil - e fico com ela nas mãos, indeciso, olhando para uma pipa recortada contra o céu meio nublado.&lt;/p&gt;&lt;div&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" face="arial" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Uma caderneta de telefones... uma antiga caderneta de telefones é um opúsculo de promessas que envelheceram. Sonhos perdidos ou eternos. Imagino, e sei. Uma caderneta é a crônica das relações humanas, como por exemplo, Liga pra mim, meu bem, Ligo sim, meu amor, qual é o teu número?; a moça pega a caneta, ou o homem mesmo escreve, Quero muito voltar a te ver, Eu também, mas deixa que eu ligo pra marcarmos algo. Um beijo ardente de paixão é trocado, a caderneta é guardada. Provavelmente o homem ligará, ou não ligará, mas isso é relativo porque a caderneta registrou o resumo da paixão rápida e tresloucada que poderá ou não continuar. Se continuar, será a caderneta a protagonista - Onde está o número da Karlinha?, ah!, achei. Uma caderneta de telefones é o capítulo anterior ligando-se ao seguinte, filtrado pelo presente.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; font-family: arial; text-align: justify;"&gt;A caderneta é amarelada e triste na minha mão gasta. É miúda, pequena, e está quase completamente cheia de números e símbolos, grande parte ilegível. Folheio-a: nomes apocalípticos e seqüências numéricas agressivas, desconfiadas, sutis. Feições feitas de cinza levantam-se acordadas pelo vento misterioso da caderneta, abrem a boca num bocejo estertoroso (lamentação? raiva? despeito? afeição?) e desmancham-se. Folha por folha. &lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Uma caderneta de telefone é mais que ela mesma. A caderneta transcende a caderneta. É o testemunho do passado e a agonia do presente. O garoto que conheceu a garota perfeita, a mulher da sua vida, olha a caderneta em que marcou o telefone dela e hesita, Ligo ou não ligo? Ligo ou não ligo? Ou o homem que necessita falar urgentemente com um amigo no seu trabalho e treme de vergonha e timidez ao vislumbrar a seqüência no papel, Diabos, provavelmente não será ele quem atenderá, será outra pessoa, terei de mandar chamá-lo... não é melhor falar pessoalmente? Ou a velha mãe que deseja ligar para o filho e põe os óculos na ponta do nariz e acha o número na caderneta (tem péssima memória) e só então, com o fone na mão e os dedos nas teclas, pensa, E se aquela vadia dissimulada atender, não suporto nem a ouvir a voz dela, que desgraça, meu Deus, como o meu filho pôde cair nas mãos daquela víbora?&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Ou qualquer outro que olhe aflitivamente para o telefone interrogando a caderneta (não importa se continuando na linha ou desistindo da ligação), todos esses, todos eles, sofrem e penam perante a mudez do pequenino caderno. Expiam o pecado de hesitar.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; font-family: arial; text-align: justify;"&gt;&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;Caderneta de telefones também é presságio. Continuidade. Uma caderneta pode ser a união tácita e futura de duas almas. O apaixonado solitário, sequioso da amada inconfessa, olha para a caderneta em que tem anotado o telefone dela e pensa, Um dia desses eu ligo, confesso meu amor, e ela entenderá, seremos felizes – essa certeza lhe embriaga o espírito de uma tranqüila certeza, afinal tudo está ali, bem perto, a felicidade está no fone e na caderneta: o rapaz é feliz. Caderneta também pode ser arrufo matrimonial, Quem é essa Rosângela, seu cachorro?, que Rosângela, meu bem?, Essa aqui, tá o número dela na sua caderneta!, ah! É uma amiga, Olha aqui, José, tu não brinca comigo, tu não brinca comigo: te mato e mato a bruaca também. Caderneta também pode ser esperança, liga pro Alberto, liga, quem sabe hoje ele não te empresta o dinheiro pra nossa viagem. Pode ser conjugação de olhares, Você tem o mais belo par de olhos que eu já vi, Muito obrigada, Será que podemos, um dia destes... Claro, claro, com o maior prazer, Então deixa eu marcar o teu telefone... Caderneta pode ser encontro e dúvida, Maria, olha o que eu achei nessa caderneta velha: o telefone do Mário – será que ainda é esse o número?&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; font-family: arial; text-align: justify;"&gt;Eu prefiro caderneta velha. Tem a nostalgia do passado e transmite uma deliciosa indiferença contra o futuro. É um museu não tombado como patrimônio histórico.&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;O que seria do mundo e do homem sem a caderneta de telefones?, penso eu comovido, ainda com o caderninho na mão gasta. E não sei o que fazer com ele nesta tarde de feriado, observado pela pipa de um céu nublado e inescrutável.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt; line-height: 150%;"&gt; &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-3897855388138005176?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/3897855388138005176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=3897855388138005176' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/3897855388138005176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/3897855388138005176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2007/12/caderneta-de-telefones.html' title='Caderneta de Telefones'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6111779029757960718.post-974023112621459628</id><published>2007-12-08T13:32:00.000-08:00</published><updated>2007-12-08T14:03:58.553-08:00</updated><title type='text'>"Como a vaga que se retira da praia"...</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;A areia entregando-se aos pés. O sol branco de tão dourado. As traves longas e o arqueiro impotente postado inacessível ao ângulo. Voam rajadas de areia e o campo é infinito e móvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barro ladeia a cancha. Um terreno obscuro mas largo, eloqüente no sossego fumacento de uma rua do Comasa. Passa a bola, porra! A areia engole pés e os vomita, filtrando pedaços de sola para suas vagas sempre obscuras e renovadas. O jogo é renhido como insônia. Luta espalhafatosa de pernas e braços se golpeando irmãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os uniformes dos times se indistinguem. Estão molhados de areia que o suor procura secar. Pulmões arfantes que perseveram. Entrelaçam-se os gols ao placar, formando números.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A areia espalha-se e retorna em vagas de sol. Dois amantes, sol e areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Areia é humanidade se debatendo, correndo, amando, sofrendo, ganhando. Areia é espelho não revelado, ao dispor da poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6111779029757960718-974023112621459628?l=espelhodeareia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/feeds/974023112621459628/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6111779029757960718&amp;postID=974023112621459628' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/974023112621459628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6111779029757960718/posts/default/974023112621459628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://espelhodeareia.blogspot.com/2007/12/como-vaga-que-se-retira-da-praia.html' title='&quot;Como a vaga que se retira da praia&quot;...'/><author><name>Vanildo Danielski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/05505990650210912191</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='30' src='http://4.bp.blogspot.com/_yRXM1RWz1eI/St2pfM18SuI/AAAAAAAAABs/Qiiye05B0JU/S220/flordavida4.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
